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domingo, 8 de março de 2020

A poética (e política) fotografia de rua de Helen Levitt

março 08, 2020 | por Cid Costa Neto


A fotógrafa norte-americana Helen Levitt nasceu no Brooklyn, Nova York, em 1913. Ela trabalhou para uma fotógrafa comercial no Bronx, onde, por seis dólares por semana, aprendeu o básico da câmara escura. Em 1935, durante uma exposição na Julien Levy Gallery ela descobrir o trabalho de Henri Cartier-Bresson e Walker Evans.

Interessada em cinema, tornou-se editora e diretora de filmes em tempo integral. Na década de 1950 fez uma segunda carreira fora de seus filmes, um dos quais foi uma colaboração com o escritor James Agee. Ela retornou à fotografia em 1959 depois de receber uma bolsa Guggenheim para suas cenas de rua, mas desta vez em cores.


Levitt foi uma das pioneiras da fotografia colorida, mas teve seu trabalho ofuscado. Joel Meyerowitz, Stephen Shore e William Eggleston sempre foram aclamados como os pioneiros da fotografia colorida de belas artes, mas Levitt fez sua exibição de trabalhos coloridos no Museu de Arte Moderna dois anos antes de Eggleston.

As portas de Nova York, as fachadas das lojas e as saídas de incêndio em cascata eram o grande pano de fundo das fotos de Helen Levitt. No Lower East Side e no Harlem, as crianças fingiam ser noiva e noivo, usavam máscaras para o Halloween ou desenhavam com giz na calçada. O lirismo de seu trabalho a levou a ser chamada de poeta visual da cidade.


Na época, Nova York estava cheia de ativismo. Levitt, filha de um imigrante russo-judeu, foi influenciada pela Liga das Fotos e seu líder, Sid Grossman, que pediu aos membros que fotografassem com uma consciência social. “Eu decidi que deveria tirar fotos de pessoas da classe trabalhadora e contribuir para os movimentos”, disse ela em entrevista à National Public Radio.

Levitt morou em Nova York e permaneceu ativa como fotógrafa por quase 70 anos. Com uma vida pessoal tranquila, raramente dava entrevistas e geralmente era muito introvertida. Levitt nunca se casou e morava sozinha com seu gato amarelo Blinky até que, aos 95 anos, morreu em seu sono, em 29 de março de 2009. Veja abaixo algumas de suas fotos:










sexta-feira, 15 de março de 2019

O lado esquecido da sociedade nas fotos de Mary Ellen Mark

março 15, 2019 | por Cid Costa Neto


Mary Ellen Mark foi uma fotógrafa norte-americana conhecida principalmente por sua fotografia documental e de retrato. Em suas fotos, ela registra o lado esquecido da sociedade ou simplesmente o lado que ninguém quer ver. Seu trabalho foi exibido em galerias e museus em todo o mundo e amplamente publicado em revistas como Life, Rolling Stone, Vanity Fair, e jornais como o New Yorker e New York Times. Ela foi membro da agência Magnum entre 1977 e 1981.

Mark nasceu em 20 de março de 1940, em Elkins Park, Pensilvânia. Criada no subúrbio da Filadélfia, começou a fotografar com uma câmera Brownie aos nove anos. Estudou na Cheltenham High School, onde ela era líder de torcida principal e exibia habilidade para pintar e desenhar. Em 1962 formou-se em pintura e história da arte da Universidade da Pensilvânia. Depois de se formar, ela trabalhou brevemente no departamento de planejamento da cidade de Filadélfia.

Mary Ellen Mark, 1967 | Foto: Ralph Gibson

Mark voltou para a Universidade da Pensilvânia para realizar um mestrado em fotojornalismo na Annenberg School for Communication, concluído em 1964. No ano seguinte, Mark recebeu uma Fulbright Scholarship para fotografar na Turquia durante um ano, produzindo as imagens para o seu primeiro livro, "Passport" (1974). Lá ela também viajou para fotografar na Inglaterra, Alemanha, Grécia, Itália e Espanha.

Em 1966, Mary mudou-se para a cidade de Nova York, onde fotografou manifestações em oposição à Guerra do Vietnã, o movimento de libertação das mulheres e a cultura drag, desenvolvendo uma sensibilidade longe da sociedade dominante e em direção a temas mais interessantes e muitas vezes problemáticos. Sua fotografia passou a abordar questões sociais como os desabrigados, dependentes químicos e a prostituição. As crianças são um assunto recorrente em grande parte do seu trabalho.

Garota pulando o muro, Nova York, 1967 | Foto: Mary Ellen Mark

"Sempre senti que crianças e adolescentes não são 'crianças', são pessoas pequenas. Eu olho para elas como pessoas pequenas e eu gosto delas ou não. Eu também tenho uma obsessão por doenças mentais e pessoas estranhas que estão fora dos limites da sociedade"
Mark era conhecida por estabelecer fortes relações com seus assuntos. Ela viveu por seis semanas com os pacientes na enfermaria de segurança do Hospital Estadual de Oregon e passou 3 meses fazendo amizade com as prostitutas que trabalhavam em uma rua em Bombaim. Seu projeto "Streets of the Lost" com a escritora Cheryl McCall, para a Life, produziu seu livro "Streetwise" (1988) e foi tema do documentário de mesmo nome, dirigido pelo marido Martin Bell.

Mary Ellen Mark morreu em 25 de maio de 2015 em Manhattan, aos 75 anos de idade, de síndrome mielodisplásica, uma doença do sangue causada por insuficiência da medula óssea.

Laurie na banheira, Salem, 1978 | Foto: Mary Ellen Mark

Madre Teresa, Calcutta, Índia 1980 | Foto: Mary Ellen Mark

Rat e Mike com uma arma, 1983 | Foto: Mary Ellen Mark

Lillie, Seattle, 1983 | Foto: Mary Ellen Mark

Família Damm, Los Angeles, 1987 | Foto: Mary Ellen Mark

Amanda e sua prima, Valdese, 1990 | Foto: Mary Ellen Mark

Benares, Índia, 1989 | Foto: Mary Ellen Mark

Ahmedabad, Índia, 1990 | Foto: Mary Ellen Mark

Crissy, Dean e Linda Damm, Llano, 1994 | Foto: Mary Ellen Mark

Artigo publicado originalmente no site iPhoto Channel.

quinta-feira, 14 de março de 2019

A fotografia Yanomami da brasileira Claudia Andujar

março 14, 2019 | por Cid Costa Neto


Claudia Andujar é uma fotógrafa e ativista suíça naturalizada brasileira que dedicou sua vida à proteção dos índios Yanomami. Durante as décadas de 1970 e 80, a fotógrafa mirou suas lentes para captar o espírito desse povo enquanto lutava pela preservação de sua cultura. Suas fotos estão em alguns dos principais museus e galerias do mundo, como o Museu de Arte Moderna de Nova York, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea em Paris, na Pinacoteca de São Paulo e no Instituto Inhotim em Belo Horizonte.

Claudia Andujar nasceu Claudine Haas, em 12 de junho de 1931, em Neuchâtel, Suíça. Filha de mãe suíça e pai húngaro, morto no campo de concentração de Dachau, mudou-se para os Estados Unidos aos 17 anos após perder quase toda sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Em Nova York, conheceu Julio Andujar, refugiado da Guerra Civil Espanhola, com quem se casou em 1949, aos 18 anos. Separaram-se poucos meses depois, quando Julio foi enviado para a Guerra da Coreia. Ainda em Nova York, Claudia formou-se em Humanidades pelo Hunter College e trabalhou como intérprete da ONU.

Claudia Andujar no navio em que veio para o Brasil, em 1955

Em 1955, Claudia chegou a São Paulo, onde já vivia sua mãe, naturalizando-se brasileira. Começou a viajar pelo Brasil e pela América Latina, fotografando essencialmente para si mesma e como uma forma de estabelecer contato com a população local, já que na época Claudia ainda não dominava a língua portuguesa. Progressivamente, começou a publicar suas fotos em revistas brasileiras e estrangeiras.
"Não falava português, então me comunicava através da fotografia"
Por orientação de seu amigo Darcy Ribeiro, Claudia entrou em contato com índios pela primeira vez em 1958, durante uma visita à Ilha do Bananal, terra dos Karajá. Algumas dessas imagens foram compradas por Edward Steichen, então diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, e depois foram publicadas pela Life. A partir de 1967, começou a colaborar com a revista Realidade, da Editora Abril, junto com seu segundo marido, o fotógrafo norte-americano George Love.

Claudia Andujar retornando da visita à etnia Kikrin, em 1966 | Foto: Carlo Zacquini

Em 1971, uma edição especial da revista Realidade sobre a Amazônia a conduziu até os Yanomami. No intuito de se aprofundar no entendimento desta cultura, Claudia decidiu então abandonar São Paulo e o fotojornalismo, indo viver entre Roraima e Amazonas em tempo integral. Amparada por uma bolsa de dois anos da Fundação Guggenheim (1971 e 1974) e uma da Fapesp, em 1976.
“Sem dúvida minha fotografia é marcada pelo meu passado. Um passado de guerra, um passado de minorias. Isso é algo que não só me preocupa, mas me perturba. É parte da minha vida. Me interesso muito pela questão da justiça e das minorias que estão tentando se afirmar no mundo, mas se deparam sempre com um dominador que procura apará-las”
Em 1978, após ser enquadrada na lei de Segurança Nacional pelo governo militar e ser expulsa do território indígena pela Funai, retornou a São Paulo e organizou um grupo de estudos em defesa da criação de uma área indígena Yanomami. Este foi o embrião da ONG Comissão pela Criação do Parque Yanomami, CCPY (hoje Comissão Pró-Yanomami).

Claudia Andujar com o líder indígena Davi Kopenawa, em convenção da ONU, em 1993

Ao assumir o ativismo político em defesa da causa Yanomami, Claudia foi diminuindo progressivamente sua atividade fotográfica ao longo da década de 1980, justamente quando a mobilização pela demarcação foi ganhando força. Claudia assumiu então a coordenação da campanha pela demarcação da terra indígena, o que finalmente ocorreu em 1992.

Andujar teve seus trabalhos expostos em mostras como Arte Brasileira: 50 Anos de História no Acervo MAC/USP: 1920-1970, no MAC/USP, 1996; 24ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, na Fundação Bienal, 1998; Coleção Pirelli/MASP de Fotografia, no MASP, 1998; Photo España 99, Festival Internacional de Fotografia, no Museo de la Ciudad, Madri, 1999. Em janeiro de 2005, expôs na Pinacoteca do Estado de São Paulo a leitura mais completa já realizada sobre sua obra, chamada Vulnerabilidade do Ser.

Em outubro de 2015, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro apresentou a exposição "Claudia Andujar: no lugar do outro", mostra de trabalhos pouco conhecidos da primeira parte de sua carreira. Em novembro do mesmo ano, o Instituto Inhotim inaugurou uma galeria permanente dedicada ao trabalho da fotógrafa.










Artigo publicado originalmente no site iPhoto Channel.

quarta-feira, 13 de março de 2019

A sociedade desnuda na fotografia de Nan Goldin

março 13, 2019 | por Cid Costa Neto


Nan Goldin é uma reconhecida fotógrafa norte-americana. Inspirada pelo fotógrafo Larry Clark, seu trabalho geralmente explora temas polêmicos em nossa sociedade, como LGBT, momentos de intimidade, HIV e uso de drogas. Seu trabalho mais notável é "The Ballad of Sexual Dependency", de 1986, que documenta a subcultura gay, a família e os amigos de Goldin.

Nan Goldin nasceu em 12 de setembro de 1953, em Washington DC. Ela cresceu em uma família judia de classe média alta em Boston, Massachusetts. Com 11 anos, enfrentou a morte prematura de sua irmã, que tinha 18 anos e cometeu suicídio. Em 1968, quando tinha 15 anos de idade, um professor da escola em que estudava, a Satya Community School, introduziu-a à câmera fotográfica.

Nan Goldin, Alemanha, 1992 | Autorretrato

Sua primeira mostra solo, realizada em Boston em 1973, foi baseada em suas jornadas fotográficas através das comunidades gays e transexuais da cidade, introduzida no meio pelo amigo David Armstrong. Goldin graduou-se na School of the Museum of Fine Arts, Boston/Tufts University em 1977/1978, onde trabalhou com impressões através do processo de Cibachrome.

Depois de se formar, Goldin mudou-se para Nova York e começou então a documentar o cenário new-wave pós-punk, simultaneamente à subcultura gay no final da década de 1970 e começo da década de 1980. Nan descreve suas fotografias como um "diário visual". Através da intimidade e do afeto em relação aos seus temas, a autora revela a sua vulnerabilidade, assim como a sua própria admiração pela sexualidade.

Nan Goldin um mês depois de apanhar, 1984 | Autorretrato

O autorretrato mais emblemático da artista foi tirado em 1984, um mês após ser agredida pelo então namorado Brian. Na imagem (acima) a artista olha diretamente para a câmera, com hematomas no rosto e sangue intenso no branco do olho esquerdo. O autorretrato foi tirado para impedir Goldin de esquecer o dano causado pela violência do namorado. Ela aplica a mesma franqueza às vidas de seus amigos íntimos.
"Estes são meus amigos, esta é minha família, esta sou eu mesma. Não há separação entre mim e o que eu fotografo"
Goldin é atraída pelo glamour do mundo das drag queens e travestis. "The Other Side" documenta 20 anos de fotos de drag queens amigas de Goldin. O livro é apresentado em ordem cronológica mostrando a vida íntima de quem a identidade de gênero não se conforma com a regra. Na série "Jimmy Paulette e Taboo! Undressing", de 1991, dois homens são retratados durante toda a sua transformação de gênero. Como é característico no trabalho de Nan, esse momento de exposição é apresentado com franqueza e empatia.

Jimmy Paulette e Tabboo! se despindo, Nova York, 1991 | Foto: Nan Goldin

Em 1991, Goldin muda-se para Berlim, graças ao programa da organização Deutscher Akademischer Austauschdienst (DAAD). Em 1996, o Whitney Museum of American Art faz uma retrospectiva do trabalho de Nan chamada “I’ll be your mirror”, que também é lançada em livro. Em 2003 lança uma retrospectiva de sua carreira através do livro “The devil’s playground” e, em 2006, exibe na Matthew Marks “Sisters, saints and sibyls”, um trabalho multimídia, o qual trata sobre a morte da sua irmã, e como ela lidou com isso.

Em 2016, lançou o livro "Diving For Pearls", que revisita 40 anos de sua obra pessoal, reunindo 400 fotografias, muitas delas novas juntamente com outras que nunca foram publicadas antes, feitas com câmera analógica e com “erros” como exposição dupla ou marca de clipes nos negativos. O nome é uma homenagem ao seu amigo David Armstrong que costumava dizer que fazer uma boa foto era como mergulhar para achar pérolas. Veja abaixo algumas imagens produzidas por Nan Goldin:

Hematoma em forma de coração, 1980 | Foto: Nan Goldin

Rise e Monty, Nova York, 1980 | Foto: Nan Goldin

Nan e Brian na cama, Nova York, 1983 | Foto: Nan Goldin

Gina na festa do Bruce, Nova York, 1991 | Foto: Nan Goldin

Misty e Jimmy Paulette no táxi, Nova York, 1991 | Foto: Nan Goldin

Amanda no espelho, Berlin, 1992 | Foto: Nan Goldin

Amanda, Hotel Savoy, Berlin, 1993 | Foto: Nan Goldin

Joey no espelho, Berlin, 1992 | Foto: Nan Goldin

Gotscho beijando Gilles, Paris, 1993 | Foto: Nan Goldin

Bruno fumando um baseado, Paris, 2001 | Foto: Nan Goldin

Kat e Sarah, Hudson, NY, 2006 | Foto: Nan Goldin

Artigo publicado originalmente no site iPhoto Channel.