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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Fotolivro colaborativo defende a democracia radical

fevereiro 18, 2022 | por Adriana Vianna

O manifesto, como Anna Ostoya diz, é para lembrar que toda arte e teoria são, inerentemente, colaborativas



Em imagens e palavras, Anna Ostoya e Chantal Mouffe criaram um manifesto apaixonado sobre a política global. A obra contemporânea é contornada pelo hibridismo entre literatura, fotografia e plástica.

Politics & Passions (MACK, 2021) foi definido como um trabalho colaborativo a partir de um ensaio artístico realizado em 2002 por Chantal Moufle. Ostoya fez uma revisitação complexa e aprofundada da obra e de sua própria interferência na obra. O diálogo entre imagens fotográficas e imagens plásticas, estendendo-se às palavras e à política, colocam a obra no contexto da arte contemporânea.

No ensaio original de 2002, “Política e paixões: as apostas da democracia”, Mouffe oferece uma crítica ousada à política permanente do neoliberalismo e uma advertência sobre o que ela possibilita: o surgimento do populismo de direita. Influenciada e inspirada pelo ensaio, Ostoya fez interferências artísticas sobre o ensaio de Moufle com colagens e textos em 2009.

Processo artístico

Para a versão de 2021, Ostoya revisitou o ensaio original, sua adaptação para o livreto de 2009 e uma década de seu próprio trabalho artístico para criar o que chamou de uma nova “Política e Paixões”. Na nova obra Ostoya reproduziu sua intervenção textual de 2009 e compôs para ela uma série de vinte e cinco retratos compostos.

Os retratos são baseados em esboços que ela fez de concidadãos andando na linha metrô de Nova York. Ela decidiu “seguir os contornos dos esboços para compor fotomontagens”, utilizando reproduções de suas próprias pinturas e colagens da década anterior.

São, com efeito, formas fragmentadas das ideias de Mouffe. Cada imagem coloca em primeiro plano uma figura central, mas abstrata, e constitui um testemunho comovente do modo como Ostoya se comove com as palavras de Mouffe e aspira, por sua vez, nos comover.

Convencional na forma, o ensaio original de Mouffe é uma síntese de dezesseis páginas que Ostoya corta, espalha e estende, tornando-o um pedaço do tamanho de um livro. Em outras palavras, a cópia é uma reprodução lo-fi conscientemente – a tradução de Ostoya transformada em arte visual.

 



Análise da obra

Em suas mãos, o ensaio teórico tornou-se um verdadeiro poema conceitual (o que ela chama de “composições verticais”), repleto de recortes, oferecendo-lhe um tom e um teor diferentes. Ela “seguiu a voz de um leitor imaginário” para decidir exatamente como truncar e separar as linhas de prosa de Mouffe, dando-lhes mais tempo e espaço – espaço para respirar que encoraja maior atenção e intimidade. É uma desmontagem que constrói de novo.

A maioria das linhas são apenas uma ou duas palavras, e algumas páginas contêm apenas uma ou duas linhas, com espaçamentos variados. Em alguns lugares, as páginas inteiras permanecem em branco. Outras ainda reproduzem uma linha simples - não uma linha composta de palavras, mas a linha horizontal preta que no original de Mouffe aparece sob os números das páginas do ensaio ou acima de suas notas de rodapé. Ostoya isola essas linhas e as transforma também, recusando-se a jogar em linha reta. A inclinação torna-se um rico trocadilho visual, a manifestação de uma perspectiva diferente, um novo ângulo. É um lembrete para olhar de novo e de soslaio.



Curiosamente, enquanto Ostoya organiza o ensaio de Mouffe de outra forma, ela omite o números de página, frustrando os métodos tradicionais de citação no processo. Ela deixa a ordem das palavras original de Mouffe e, portanto, o argumento geral intacto. Dito isso, o próprio ato de traduzir formalmente o texto de Mouffe é inerentemente interpretativo. Ostoya altera nossa experiência dela, seu afeto, transformando a aparência, a sensação e o ritmo das palavras e adicionando seus retratos visualmente densos. Ela afirma que “a única regra que segui foi colocar o 'eu' e seus derivados no topo de uma página. Estas são as páginas com imagens coloridas.”


"O jogo verbal e visual irradia em múltiplas direções. Faz perguntas."

A primeira imagem colorida que encontramos (é também a imagem da capa do livro) aparece no lado esquerdo de uma página espelhada com uma linha radicalmente encravada à direita: “Eu / estive / estive / preocupado / com / o quê”. Ao lado do retrato de Ostoya, podemos ler esta linha e suas cesuras exageradas como uma pergunta: quem é o “eu” (Mouffe? Ostoya? As duas? Nenhuma?) e com o que “eu” está preocupado? Podemos muito bem ler esta linha, pois tenho me preocupado com o que está acontecendo na esquerda política – sem dúvida a preocupação animadora deste projeto.

Notavelmente, todos os retratos aparecem no lado esquerdo das páginas. Olhando para a esquerda, há uma interrogação sutil, mas percebido no próprio retrato, uma linha curva ao redor do assunto principal pontuada em seu colarinho. Ao fundo, há fotografias de arquivo de pessoas bastante sérias (todos homens, exceto um), mas a impressão fotográfica mais poderosa é aquele olho central (feminino codificado) com seu olhar direto. A relação homonímica entre “olho” visual e “eu” textual permanece uma questão de perspectiva.



O “olho” possui um potencial interpretativo. Podemos interpretar como uma espécie de vigilância perturbadora ou, em vez disso, como um convite para conectar-se – estar em relação, olhar mais intimamente e mais profundamente. Também pode funcionar como confronto ou desafio: você pode ver e reconhecer o “outro”? O que separa e conecta “eu” e “você”? Você consegue resistir a se afastar, apesar do potencial antagonismo e desconforto? Em conjunto com a extensão espacial do ensaio original de Ostoya, esses motivos visuais prolongam a atenção e o engajamento do leitor. É também uma prova do cuidado, respeito e intimidade necessários para o engajamento político.

Cada retrato e colagem textual é uma exploração das “estacas da democracia” e um convite para considerar suas implicações e revelações.

Cada retrato e colagem textual é uma exploração de, entre outras coisas, “os riscos da democracia” e um convite para considerar suas implicações e revelações. As colagens de retratos de Ostoya são compostas de muitas coisas – incluindo imagens de outras pessoas – em várias configurações. Não há dois iguais. Há uma interação constante – ou tensão irredutível – entre o individual e o coletivo, o eu e o outro, as mulheres e os homens, o amigo e o inimigo, a mente e o corpo, o visível e o invisível, o literal e o figurativo, o (foto) realismo e o abstracionismo, o passado e o presente, presença e ausência, interior e exterior, preto e branco versus cor, linhas duras e curvas flexíveis, acesso e negação, esquerda e direita política, “nós” e “eles”.

Os retratos são o ideal de Mouffe de um "antiessencialista pluralismo agonístico” estetizado, estilizado, com ilustrações de uma “multiplicidade de posições na sociedade e uma forte afirmação de que elas podem “coexistir sem violência”.


Fonte: Aperture

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Isabel Malia e sua câmera centenária

novembro 12, 2021 | por Adriana Vianna

Impedida de trabalhar durante a pandemia, a fotógrafa restaurou uma câmera Kodak 3A Modelo B-4 que encontrou online


Isabel Malia é uma fotógrafa de retratos residente na cidade de Nova York. Durante a pandemia, ficou impedida de trabalhar e, para ganhar tempo, adquiriu gosto em fotografar com filme. Acabou por aceitar o desafio de restaurar e testar uma câmera Kodak 3A Modelo B-4 de 100 anos que ela encontrou numa loja online - quando a viu se perguntou se seria capaz de fazê-la funcionar novamente. Na série resultante, em fotos panorâmicas, podemos acompanhar o processo de Isabel na tentativa de consertar os vazamentos de luz até obter nitidez. Numa entrevista ao site Lomography, ela deixou notas sobre o projeto que nomeou de “Clarence”.




A câmera é uma Kodak 3A Modelo B-4câmera de mesa dobrável para fazer exposições em formato de cartão postal de 3¼ × 5½ polegadas em filme 122, originalmente usada para retratos que, na sua época, transitavam em postais pessoais a partir de fotos de família. O modelo foi introduzido pela Kodak em 1903 e feito até 1915. A produção de câmeras para esse formato continuou até 1943 (No. 3A Kodak Series III). Contudo, o filme moderno não é tão largo quanto o filme feito para esta câmera, então a fotógrafa conseguiu fotos mais panorâmicas. 

Malia conta que a restauração foi, sobretudo, tentativas de acertos e erros. Como o fole estava em um estado excepcionalmente bom, então seu maior trabalho foi encontrar e minimizar todos os vazamentos de luz - o que fez fotografando e estudando os resultados. 

As cores dos vazamentos de luz deixam vestígios e podem dizer de onde eles vem, normalmente. Os resultados são uma mistura de cores alucinantes em fotos panorâmicas nostálgicas. Nem toda imagem captura o assunto perfeitamente, mas as cores nunca param de surpreender. Para Isabel, seu projeto pode ser descrito como “vintage com um toque um pouco assombrado”.

A fotógrafa considera que no mundo atual, onde somos constantemente bombardeados com diversos conteúdos fotográficos, uma boa foto é aquela que pode fazer uma pessoa parar por algum momento e pensar, para se perguntar sobre que é a sua arte ou como a imagem foi feita. 





Kodak 3A Modelo B-4, também conhecida como “Clarence”, de Isabel Malia
Isabel Malia e suas câmeras vintage
Hora Dourada 
Árvores
Asilo

Se uma foto pode fazer alguém parar e pensar, mesmo por um momento, para se perguntar sobre sua arte, então é uma boa foto” - Isabel Malia 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Curso: Mulheres na História da Fotografia

outubro 29, 2021 | por Adriana Vianna



Entre os dias 23 de novembro a 21 de dezembro será realizada a segunda edição do curso online “Mulheres na História da Fotografia”, com apoio do Resumo Fotográfico. As aulas serão ministradas através da plataforma Zoom e as inscrições podem ser feitas pelo Sympla

Sobre o curso

É com satisfação que posso dizer que o curso "Mulheres na História da Fotografia" é um dos pioneiros dentro do Brasil na área do protagonismo feminino na História da Fotografia.

A primeira versão, ministrada em março de 2021, foi um sucesso e seu conteúdo foi desdobrado em outros cursos e oficinas durante o ano inteiro, porque a missão dessa pesquisa é colaborar e dar visibilidade ao trabalho das mulheres.

Nessa nova edição estaremos repetindo o conteúdo anterior com nova organização, trazendo novas referências, pois a pesquisa está mais profunda. Continuaremos a empreender apreciação nos trabalhos das pioneiras, procurando através da leitura conceitual e estética encontrar as referências culturais e artísticas que nos são apropriadas e, com isso, visamos abrir espaço para encontro e reflexão do estilo próprio de cada participante do curso.

Como sempre, o conteúdo transita entre a História da Arte e da Fotografia, e será oferecido uma ampla lista de referências e bibliografia.

Programa
 
Temas principais: identidade cultural e fotografia entre documento e arte
Eixos principais: europeu, norte-americano, africano, asiático, latino-americano
Tópicos principais: pictorialismo, Bauhaus, surrealismo, modernismo, pós-modernismo
  • Aula 1 - 23/11 (2h/a) - Fotógrafas pioneiras, passagem dos arquétipos ao protagonismo profissional
  • Aula 2 - 30/11 (2h/a) - Fotógrafas artistas em união entre arte e fotografia
  • Aula 3 - 07/12 (2h/a) - Fotógrafas de rua, de guerra, fotojornalismo e documental
  • Aula 4 - 14/12 (2h/a) - Fotógrafas de estúdio e a poesia dos retratos e dos autorretratos
  • Aula 5 - 21/12 (2h/a) - Mentoria, orientação, produção, curadoria, leitura de portfólio

Sobre a professora

Adriana Vianna escreve regularmente sobre fotografia na página do Resumo Fotográfico onde expõe tendências para filosofia da imagem, curadoria e crítica, com ênfase no universo feminino. Formada com Licenciatura Plena em Artes Visuais, tornou-se Especialista em Filosofia e Arte, e fez estudos em Fenomenologia no Doutorado da Universidade de Filosofia Nova de Lisboa, Portugal. No Rio de Janeiro, trabalhou por sete anos como assistente pessoal do marchand Paulo Fernandes na Galeria Paulo Fernandes. Migrou e vive em Minas Gerais há oito anos onde leciona História da Arte na Rede Estadual de Ensino Público (EM, EJA, ENEN) e particularmente leciona em cursos sobre Mulheres na História da Fotografia, sendo integrante da Associação Brasileira de Educação à Distância. É criadora e mentora do Grupo de Estudos Imago, e co-criadora e apresentadora do programa audiovisual Fotofalando. Seus projetos pessoais envolvem a fotografia autoral entre documento e arte, autorretratos e processos artísticos que contornam a poética do tempo e do efêmero. Recentemente participou da Big Bienal Internacional de Guarulhos, Salão de Artes Visuais do Caiacó, Festival de Arte e Fotografia de Vassouras, Festival Internacional Confluências de Artes, Leitura de Portfólio no Festival FFALA, entre outros.

Principais cursos de autoria lecionados online no contexto do protagonismo feminino:

Principais trabalhos em continuidade:

Para quem é o curso

Esse curso é para pessoas que tenham interesse em História da Arte e Fotografia com ênfase no protagonismo feminino.

SERVIÇO
Curso “Mulheres na História da Fotografia"
Datas: 23 de novembro a 21 de dezembro
Horário: terças-feiras, de 19h30 às 22h
Carga horária: 10h (5 aulas de 2h)
Inscrições: Sympla  | R$ 300 (inteira), R$ 200 (ex-alunos), R$ 60 (p/ aula)
Local: online, através da plataforma Zoom (o link será enviado após a inscrição)
As aulas serão gravadas e poderão ser enviadas a quem ocasionalmente perder algum encontro

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Diálogo entre tempos, afetos e autorretratos

outubro 08, 2021 | por Adriana Vianna

Através do trabalho de resgate de memória no arquivo fotográfico do pai, a fotógrafa russa Natasha Lozinskaya conta sua própria história no ensaio “The apple never falls far from the tree


Um dia encontrei uma caixa no armário, esquecida por todos, com o arquivo de filmes fotográficos do meu pai - e a partir desse momento começou o meu diálogo com quem já não está aqui.



Meu pai faleceu quando eu tinha 23 anos e, como descobri, eu não conhecia muito bem esse homem, embora vivêssemos como uma família e sob o mesmo teto. Para mim, ele foi um militar reservado, um coronel, um homem privado e introvertido, um técnico, um matemático, um atleta e aquele que muitos admiravam. Fiquei surpresa ao encontrar três dúzias de filmes fotográficos feitos por ele aos vinte e poucos anos. Mas, acima de tudo, fiquei impressionada com os autorretratos de meu pai, tirados em grande número. Nunca imaginei meu pai assim: talentoso, sensível, atento aos detalhes.




Quando percebi que não teria mais o prazer de conversar com ele sobre fotografia, nem sobre seus autorretratos, o céu dos anos 70 e a sensibilidade espiritual que tinha, decidi continuar o diálogo com a ajuda do arquivo restante. Eu queria juntar dois mundos existentes - aquele capturado em filmes fotográficos e aquele em que vivo. Eu queria encontrar respostas para mim mesma sobre as perguntas: quem é esse homem que me olha corajosamente em fotos em preto e branco? Onde estou aqui, sou aquela que tem medo dos próprios autorretratos?








Combinando neste projeto duas histórias pessoais da mesma família - a minha e a do meu pai - fui ficando cada vez mais consciente de que a comunicação com parentes que já não vivem, sempre continua. Mas, assim como na vida cotidiana, o diálogo deve ser permitido.








Sobre Natasha Lozinskaya

Natasha Lozinskaya é uma fotógrafa russa de arte e documentário, agora radicada em São Petersburgo. Embora ela tenha se formado no Instituto Literário de Moscou com especialização em poesia, ela nunca trabalhou apenas neste campo. A fotografia tornou-se outra expressão de poesia para ela e uma tentativa de encontrar uma identidade nacional e harmonia com o mundo ao redor. As suas obras baseiam-se no sentimento nostálgico de um lar perdido, que procura ver nas personagens, nas paisagens circundantes e nos acontecimentos da sua vida. Por meio da fotografia, ela explora temas como a relação com o passado e a pátria, arquétipos, realismo místico, características sociais e culturais do outback russo em diferentes regiões. Ela é participante de um leilão beneficente de apoio aos médicos “Photographers to Doctors”, participante da exposição e finalista do concurso “Young Russian Photographers” em 2020 e 2021, participante de muitas exposições coletivas em São Petersburgo. Seus projetos foram publicados em edições russas como “Novaya”, “Zapovednik”, “República”, “Colta”.

Fonte: Dodho

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Métodos e poéticas de Julia Margaret Cameron para retratos

outubro 01, 2021 | por Adriana Vianna

O trabalho fotográfico em retratos da pioneira Julia Margaret Cameron é muito considerado por fotógrafas, colecionadores e museus. Por que ela é especial como uma referência na arte da fotografia experimental? O que aprender com os métodos e poéticas?


Para começar vamos lembrar que Julia Margaret Cameron tinha 48 anos quando recebeu sua primeira câmera, um presente de sua filha e genro, e foi por essa ocasião que fez suas primeiras experimentações, improvisando o local de revelação das imagens: "Transformei o quarto de carvão no quarto escuro e um aviário envidraçado que dei aos meus filhos, tornou-se minha caixa de vidro!"

Na ocasião, Cameron já trazia na bagagem conhecimentos sobre fotografia, havia compilado álbuns e feito experiências com a impressão de fotos de negativos. Em uma ocasião, ela imprimiu um negativo do pioneiro fotógrafo de arte sueco OG Rejlander, cercando o retrato com samambaias para criar um quadro de fotograma - uma combinação de uma imagem feita em uma câmera e com uma técnica sem câmera (Anna Atkins). Esse trabalho já mostrava a natureza experimental de Cameron e fornece um vislumbre de sua prática fotográfica antes de adquirir sua própria câmera.

Kate Dore, de Oscar Gustaf Rejlander, possivelmente em colaboração com Julia Margaret Cameron, impressa por Julia Margaret Cameron, por volta de 1862, na Inglaterra | Victoria and Albert Museum

“Beleza, você está presa. Tenho uma câmera 
e não tenho medo de usá-la”
Julia Margaret Cameron

Dominar técnica e criar método

Cameron usava uma câmera de madeira, que ficava em um tripé, era grande e pesada. Ela usava o processo mais comum na época, produzindo impressões de albumina a partir de negativos de vidro de colódio úmido. Um trabalho físico difícil com materiais potencialmente perigosos, o processo exigia que uma placa de vidro (aproximadamente 12 x 10 polegadas) fosse revestida com produtos químicos fotossensíveis em uma câmara escura e exposta na câmera quando ainda úmida. O negativo de vidro era então devolvido à câmara escura para ser revelado, lavado e envernizado. As impressões eram feitas colocando o negativo diretamente em papel fotográfico sensibilizado e expondo-o à luz solar.

Nomear o "primeiro sucesso", o marco de satisfação

Cada etapa do processo oferecia espaço para erros: a frágil placa de vidro precisava estar perfeitamente limpa e livre de poeira; precisava ser revestida por inteiro e submersa em várias etapas; as soluções químicas tinham de ser preparadas corretamente na hora. Mesmo assim, Cameron rapidamente superou as dificuldades dedicada à fotografia e após um mês fez a fotografia que chamou de seu "primeiro sucesso", um retrato de Annie Philpot, filha de uma família que vivia na Ilha de Wight, onde Cameron morava. Mais tarde, ela escreveu sobre seu entusiasmo:

"Eu estava em um arrebatamento de alegria. Corri por toda a casa em busca de presentes para a criança. 
Eu senti como se ela tivesse feito a foto inteiramente."
Julia Margaret Cameron

Annie por Julia Margaret Cameron, 1864, Inglaterra | Victoria and Albert Museum

Perceber a tendência artística de seu estilo

Veio de seu "primeiro sucesso" quando ela passou rapidamente a fotografar família e amigos. Esses primeiros retratos revelam como ela experimentou foco suave, iluminação dramática e composições de close-up, marcas que se tornariam seu estilo característico.

Zoe, Donzela de Atenas. Julia Margaret Cameron | Acervo do Met Museum

O campo em que a fotografia tem um poder de expressão tão grande que a linguagem nunca pode abordar, é a fisionomia"
 Julia Margaret Cameron 

Investir no gosto pessoal

Com uma câmera maior para tamanhos quase naturais, no verão de 1865, ela iniciou uma série de retratos em grande escala usando close-up - que viu como uma rejeição da fotografia convencional em favor de um tipo de retrato menos preciso e mais atraente, emocionalmente. A câmera segurava um negativo de vidro de 15 x 12 polegadas. Na ocasião ela escreveu a Henry Cole, o diretor do South Kensington Museum (agora V&A), que pretendia com esta nova série “eletrizar você de alegria e assustar o mundo".

Uma fotografia nesta série, intitulada “Head of St. John”, era um retrato da sobrinha de Cameron, May Prinsep. Iluminada de lado, com o cabelo solto, Prinsep parece andrógina, como um santo homem. Cameron escreveu esta fotografia, 'Da vida não ampliada', para enfatizar que a cabeça era quase do tamanho natural. Cameron também produziu uma série de 12 estudos em tamanho natural de cabeças de crianças com sua nova câmera. Pretendiam ser estudos artísticos, feitos com intensidade e ternura.

“Head of St. John”, por Julia Margaret Cameron, 1866, Inglaterra | Victoria and Albert Museum

Entender que os erros e acertos podem indicar o caminho pessoal da estética e confirmar estilo

Cameron incluiu imperfeições em suas fotografias - listras, redemoinhos e até impressões digitais - que outros fotógrafos teriam rejeitado como falhas técnicas. Embora as imperfeições tenham sido criticadas na época, podem agora ser consideradas à frente de seu tempo. Em sua obra “Iolande e Floss”, por exemplo, redemoinhos de colódio usados durante o processo fotográfico se fundem com os redemoinhos da cortina, realçando a qualidade etérea e onírica da imagem.

“Iolande e Floss”, por Julia Margaret Cameron, cerca de 1864, Inglaterra | Victoria and Albert Museum

É difícil dizer se a própria Cameron adotou essas "falhas" ou se simplesmente as tolerou. Sabemos, porém, que às vezes ela rabiscava seus negativos para fazer correções; imprimiu a partir de negativos quebrados ou danificados e, ocasionalmente, usou vários negativos para formar uma única imagem, o que nos diz que ela não se importava com um certo nível de imperfeição visível, no mínimo.

Um de seus exemplos mais extremos de manipulação de um negativo pode ser visto em um retrato de Julia Jackson. Cameron rabiscou uma imagem no fundo deste retrato piedoso de sua sobrinha, para criar um desenho fotográfico híbrido. O desenho de uma figura drapeada em um ambiente arquitetônico evoca a arte religiosa.

Julia Jackson, fotografia, de Julia Margaret Cameron, 1864, Inglaterra | Victoria and Albert Museum

Ela não gostou, porém, de um tipo de imperfeição: a aparência de rachaduras. Ela escreveu para Henry Cole reclamando que o crack arruinou alguns de seus "negativos mais preciosos", incluindo uma fotografia intitulada "O Sonho". Ela culpou seus produtos químicos fotográficos pelas rachaduras, enquanto membros da Sociedade Fotográfica suspeitavam do clima úmido da Ilha de Wight. A teoria de hoje é que deixar de lavar bem os negativos depois de consertá-los causou a rachadura. Ela parecia não se incomodar, no entanto, com as duas impressões digitais borradas no canto inferior direito do “Sonho”.

“O Sonho” (detalhe), de Julia Margaret Cameron, 1869 | Victoria and Albert Museum
Detalhe de “O Sonho” 

O processo de trabalho e os padrões pessoais de Cameron podem ser entendidos como esboços inacabados como comentários, partes de seu processo, e a própria "imperfeição" dessas gravuras sugere que Cameron era uma artista mais perspicaz do que pensavam os críticos, tanto em sua própria época como depois.
Mary Hillier, por Julia Margaret Cameron, cerca de 1864-65, Inglaterra | Victoria and Albert Museum

Criar, cada fotografia conta uma história

Cameron foi uma criadora de histórias, narrativas fotográficas, como dizemos hoje. Ela descreveu seus temas fotográficos nas categorias 'Retratos', 'Grupos de Madonna' e 'Assuntos extravagantes para efeito pictórico'. Em contraste com seu retrato de pessoas, Cameron olhou para a pintura e escultura como inspiração para seus temas alegóricos e narrativos. Ela fez alguns trabalhos como interpretações fotográficas de pinturas específicas de artistas como Raphael e Michelangelo. Em outros, ela pretendia criar de forma mais geral o que descreveu como “efeito pictórico”.

A doce liberdade da ninfa da montanha, 1866. Julia Margaret Cameron | Acervo do Met Museum

Na fotografia de Miss Keene como uma modelo cativante sobre a qual nada sabemos além de seu sobrenome, percebemos como olha diretamente para a câmera (para o observador), com os cabelos soltos e os olhos arregalados. Preenchendo o quadro, ela parece sair de cena. A fotografia leva o título do poema “L'Allegro”, de John Milton, uma celebração dos prazeres da vida:

Venha e viaje enquanto caminha
Com o dedo do pé leve e fantástico;
E em tua mão direita conduza contigo
A ninfa da montanha, doce Liberdade.

Cameron enviou a fotografia ao seu amigo, o renomado cientista Sir John Herschel, que respondeu: “Aquela cabeça da 'Ninfa doce liberdade da montanha' parece um pouco tímida e perturbada pelo caminho, como se fosse a primeira vez a se soltar (e meio com medo de que fosse bom demais para durar) é realmente uma peça de alto relevo surpreendente. Ela está absolutamente viva e projetando a cabeça do papel para o ar. Este é o seu próprio estilo especial.” Herschel aproveitou a qualidade mais impressionante da fotografia, seu surpreendente senso de presença e de conexão psicológica com o observador.

“A capacidade de encantar é o dom de prestar atenção”
Julia Margaret Cameron (1815–1879)

Ao longo de sua carreira Julia Margaret Cameron continuou a trabalhar alternadamente entre retratos, grupos de Madonna e 'temas sofisticados para efeitos pictóricos', movendo-se confortavelmente entre fotografar figuras famosas de seu círculo social e seu mundo mais próximo, incluindo membros de sua família e da casa. A coleção de gravuras de Cameron é representativa bem como da natureza inovadora e experimental de seu processo de trabalho.

Fontes: V&A Museum, The MET Museum, Dimbola Museum & Galleries

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Coletivo DAFB – Mulheres e transgêneres unidas para superar a discriminação

setembro 29, 2021 | por Anônimo

Mulheres e pessoas transgêneres da cinematografia se unem em coletivo para superar os desafios do preconceito de gênero no setor mais machista do cinema


A discriminação sofrida por mulheres e pessoas transgêneres não é novidade em nenhuma área profissional do planeta. E não seria diferente no cinema. Porém, no departamento de fotografia do cinema ela é gritante. As desculpas vão de “os equipamentos são pesados”, (o que já não procede hoje, pois os equipamentos estão cada vez mais leves) até “são poucas as profissionais no setor”, o que acontece realmente, mas justamente por causa da discriminação que acaba por afastar as mulheres da função. Como explica Nina Tedesco, diretora de fotografia, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora da relação entre gênero e audiovisual, uma das fundadoras do coletivo:

Rapidamente, as mulheres que se interessam pela profissão percebem que os diretores confiam menos nelas, que a equipe contesta mais o trabalho delas e que elas vão precisar brigar a vida inteira em desigualdade de oportunidades e sujeitas a assédio. Isso vai minando a profissionalização dessas mulheres na área. (Revista Trip, fevereiro de 2018)

Em 2016, quando a produtora O2 publicou uma lista de promessas da direção de fotografia nacional totalmente masculina, as diretoras de fotografia e profissionais do departamento decidiram agir. Era inacreditável que uma das principais produtoras do cinema nacional não conhecesse (ou reconhecesse) o trabalho de nenhuma promissora diretora de fotografia, muito menos das profissionais de base. Foi quando elas se uniram e criaram o coletivo DAFB - Diretoras de Fotografia do Brasil. Flora Dias, uma das diretoras fundadoras, esclarece:

Criamos uma base de dados com as fotógrafas de cada estado como um “cala boca” para quem diz que não existimos. É importante exercitarmos nossa autoafirmação. Temos que nos impor como diretoras de fotografia e afirmar o que sabemos fazer. Não vai ser um homem que vai dizer o que posso fazer. Se a gente for depender disso, a gente não trabalha.

Para se ter uma ideia de quão gritante é a ausência de fotografas no cinema brasileiro, entre 1995 e 2015 foram lançados 809 longas-metragens no Brasil. Desse total, apenas 48 foram fotografados por mulheres e 631, assombrosamente, não tinham sequer uma mulher em toda a equipe de fotografia. Veja os gráficos:


 

Além de compilar e divulgar os currículos das diretoras de fotografia, assistentes e técnicas diversas (mulheres cis e trans), o site do coletivo oferece importantes cursos de imersão, oficinas e debates que contribuem para a profissionalização das associades (termo DAFB, que prioriza o "e" em lugar dos discriminatórios "o" e "a") em inicio de carreira tanto tecnicamente, quanto nas questões da inserção no mercado de trabalho, o maior desafio.

Falta de talento e envolvimento não existe entre elas. Apesar de tantos desafios e dificuldades, no site do DAFB podemos apreciar a carreira de diretoras premiadas em películas lindamente fotografadas. Veja alguns exemplos:

Heloisa Passos

Veterana na cinematografia nacional, Heloísa é referência para a nova geração de fotógrafas e uma das que oferecem cursos e oficinas de formação. Atualmente ela tem garantido os melhores orçamentos no mercado do cinema. Heloísa destaca que iniciou sua carreira independente, quando percebeu que não receberia convites espontâneos. Segundo ela, dois filmes a destacaram no cenário da fotografia nacional e internacional: o longa documentário “Manda bala”, sobre corrupção no Brasil, premiado em Sundance, em 2007, e o longa de ficção “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, dos nordestinos Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.
 

Cena de “Viajo porque preciso, volto porque te amo”

Kátia Coelho

Também uma referência atual e fundadora do coletivo, Kátia foi precursora no âmbito feminino da cinematografia nacional. Ela conta que desbravou, sozinha, um universo totalmente machista. “Eu não tinha força para carregar todo o equipamento, então colocava a câmera em uma mochila de escoteiro.” Ela trabalhou como assistente de câmera por nove anos, até conquistar seu espaço entre os colegas e assinou títulos como “A via láctea”, de Lina Chamie, com Marco Ricca e Alice Braga, e “Como fazer um filme de amor”, de José Roberto Tourero, estrelado por Denise Fraga e Cássio Gabus Mendes.


Cena de “Como fazer um filme de amor”

Luciana Baseggio

Luciana também teve, em sua carreira, a necessidade de se provar capaz perante os homens. “Eu era arisca quando mais nova e não deixava ninguém me ajudar. Para ser aprovada, a gente acaba exagerando um pouco nessa dose. É uma maneira de a gente se defender. As mulheres têm que sempre que exceder, estar à frente e lutar muito”, ressalta. Foi com essa garra e determinação que ela conseguiu fotografar películas como “Sobre sete ondas verdes espumantes”, dBruno PolidoroCacá Nazario, 2014, “Dromedário no asfalto”, de Gilson Vargas, 2015, “Menos que nada”, de  Carlos Gerbase, 2012, entre outros.


Cena de “Menos que nada”

E como estas talentosas e já veteranas diretoras, tem muitas outras no site do DAFB, algumas ainda principiantes, mas com tantas histórias parecidas, em que os desafios, além dos naturais de qualquer começo, são ainda maiores, alimentados pelo preconceito e pela discriminação de gêneros. São filmografias intensas e inspiradoras que merecem e devem ser apreciadas e estudadas. Pois se o olhar masculino é o que impera no momento, o feminino é o que agrega, compartilha, dá brilho, cor e voz especialmente sensíveis e diferenciados a essa forma tão peculiar de contar histórias que é o cinema.